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"No Três Marias eu não tinha previsão de tempo, mas não sofria por antecipação"

O navegador ucrano-baiano Aleixo Belov, que recentemente cruzou o Oceano Índico sem paradas durante sua quarta Volta ao Mundo, compartilhou com o Mar Bahia uma carta, onde descreve em detalhes esta experiência, além da nostalgia e das suas observações ao comparar as últimas viagens e, aos poucos, ir finalizando mais uma, Confira:

"Resolvemos atravessar as 5.000 milhas do Oceano Índico, de Bali, Indonésia, até Durban, África do Sul, de uma só vez. Na realidade, tínhamos três ilhas pelo caminho, Cristmas, Maurítius e Reunion. Mas, resolvemos não parar. Foram 42 dias de pura água.

Cristmas, por ser uma ilha pequena, atendida só por aviões pequenos, onde não seria possível receber nossa vela grande nova, por ser muito pesada. Também por ser uma ilha australiana, precisando de visto e sujeita a muita burocracia. Maurítius e Reunion por estarem em uma latitude onde nesta época do ano, março e abril, se desenvolvem ciclones. Já desde a saída de Bali, fomos avançando rapidamente mais para o sul, nos antecipando, apesar dos ciclones serem mais frequentes já perto de Maurítius, estendendo-se até onde fica Madagascar.


Observando a previsão de tempo, percebemos que uma forte depressão estava indo ao nosso encontro, enquanto a pressão baixava bruscamente. Mudamos o rumo e fizemos tudo para nos afastar dela. Deu certo. Repetimos esta manobra outras vezes com sucesso. Ou pelo menos não pegamos a depressão em cheio. Somente o aguaceiro que despencava do céu e uma parte de seu vento.

"No Três Marias eu não tinha previsão de tempo, pelo menos não sofria por antecipação. Mas, também não conseguia me programar".

Com a previsão, consegui controlar a velocidade do avanço e chegar em uma janela de vento brando, entre dois ventos fortes, um de nordeste e outro de sueste. Ia marcando na carta bastante surrada e ensebada os pontos de nossa posição diária e me lembrando de quantas vezes passei por aqui. A primeira vez foi em 1981, na primeira volta ao mundo, a bordo do veleiro Três Marias, em solitário e em plena estação de ciclones. Observava as retas de posição do sol e das estrelas marcadas na carta, ainda no tempo do sextante. A segunda vez foi em 2001, na terceira volta ao mundo, ainda com o veleiro Três Marias, marcando os pontos já pelo GPS. E agora pela terceira vez, em 2018, a bordo do Veleiro Escola Fraternidade, novamente durante uma estação de ciclones, mas por uma rota bem mais ao sul, para fugir deles.

"Esta carta náutica eu guardo com muito carinho, ela é cheia de nostalgia, faz parte da minha história, da história da minha navegação pelo nosso planeta".

Às vezes eu sentia como estava distante de qualquer terra mais próxima, pois até as aves marinas tinham desaparecido, deixando-nos a sós, apenas com as nuvens, os ventos e às vezes à noite com as estrelas. As poucas que surgiam, cansadas, se desesperavam para pousar na ponta dos mastros, arriscando quebrar o indicador de vento. Apesar da neblina, os prédios altos da beira da praia foram aparecendo. Não parecia uma cidade africana, lembrava a Europa. Pelo rádio, pedi licença para avançar pelo canal entre dois quebra-mares e depois de estar em área abrigada contatei a Durban Marina, que mandou um barquinho com dois funcionários me guiar até a vaga e ajudar a encaixar o Fraternidade em um lugar apertado. O Fraternidade parecia ter o dobro do tamanho dos outros barcos e ficava com a metade do corpo fora da vaga.

Foram 42 dias de mar sem escala, fora da boa estação.


"Nunca numa travessia tive que rizar os panos tantas vezes. Vocês não podem imaginar, como eu gostei de ter chegado em Durban no dia 09 de maio de 2018. Estava, mais uma vez, de volta a África".

Aleixo Belov


Fotos: Leonardo Papinni


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