• Mar Bahia

Um oceano de oportunidades

André Fraga*

O maior habitat do planeta está cada vez mais sendo afetado pela mudança global do clima. Os oceanos desempenham um papel fundamental no equilíbrio planetário, seja por produzir 70% do nosso oxigênio, seja por absorver e estocar boa parte do carbono ou por sustentar importantes setores econômicos, Cientistas defendem a necessidade de protegermos ao menos 30% da superfície marinha, mas alertam para a inexistência de um acordo internacional visando a criação de santuários em águas internacionais garantindo emprego e renda a milhões de pessoas. Eles regulam a temperatura global e, por isso, devemos ficar preocupados, pois o seu desequilíbrio é, ao mesmo tempo, causa e efeito da emergência climática planetária.


As águas superficiais estão mais quentes, o nível do mar está aumentando em função do derretimento do gelo nos polos (em fevereiro de 2020, a Antártica registrou 20.7ºC de temperatura, a maior desde que iniciaram as medições). A temperatura de correntes marinhas alterada produz efeitos no transporte de nutrientes e na produção de oxigênio, mudanças nos ciclos oceânicos que potencializam fenômenos como o El Niño, La Niña e eventos climáticos extremos como furacões e tufões, além da acidificação das águas que afeta significativamente os recifes de corais (90% das espécies podem desaparecer).


Zonas costeiras abrigam 28% da população mundial, cerca de 2 bilhões de pessoas que têm suas vidas influenciadas direta ou indiretamente pelos ecossistemas marinhos. De acordo com o Relatório Especial sobre o Oceano e a Criosfera em um Clima sob Mudança, produzido pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas, 170 milhões de toneladas de frutos do mar são extraídos todos os anos para consumo humano, um outro problema que afeta diretamente a biodiversidade marinha. O relatório indica que o nível médio global do mar pode aumentar em 1,1 metro até 2100, no pior cenário de aquecimento, o que trará consequências incalculáveis para as vidas de 700 milhões de pessoas.


Estoques pesqueiros, já muito ameaçados pela pesca comercial em larga escala, também sofrem impacto direto, por conta da migração de cardumes para regiões mais frias, desequilibrando a cadeia alimentar e reduzindo populações locais de espécies com potencial econômico e, até mesmo, levando à extinção. O desequilíbrio do oceano afeta até mesmo a agricultura, por alterar o regime de chuvas nos continentes. O Relatório da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO, de 2019, apontou que apenas 1% dos orçamentos nacionais para pesquisas é direcionado para os oceanos e estima que somente 19% do seu fundo já foi mapeado e catalogado. A ONU declarou que de 2021 a 2030 será a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável – mais conhecida como Década do Oceano, e pretende mobilizar cientistas, gestores, políticos e sociedades para protegerem o oceano que, apesar de cobrir 71% da superfície do planeta Terra, é pouco conhecido e conservado (apenas 3% de sua área é protegida).


Uma ação fundamental é criar áreas protegidas e livres de atividades econômicas destrutivas, áreas que não pertencem a nenhum país. Por isso, um movimento global que já conta com apoio de diversos países têm se formado para a criação de um Tratado Global dos Oceanos, com o objetivo de criar ferramentas legais que permitam a proteção dessas áreas. Salvador criou recentemente o Parque Marinho da Barra, e está em curso a criação do Parque Marinho da Cidade Baixa, os primeiros santuários marinhos da cidade.


Mais de 3 bilhões de pessoas dependem dos oceanos, que são responsáveis por 30 milhões de empregos diretos, gerando US$ 3 trilhões de dólares por ano, o que classificaria, em termos econômicos, como a 5ª economia do mundo. E é nessa perspectiva, da economia do mar, que a recuperação de habitats como manguezais, restingas e vegetação submersa devem ser encaradas como oportunidades de geração de mais emprego e renda. O ecoturismo é outro grande potencial ainda pouco explorado, seja com o mergulho, seja com avistamento de baleias e outros animais marinhos. As praias perdem bilhões por ano por poluição plástica e de esgotos. Os oceanos podem ainda gerar energia limpa por ondas e marés, contribuindo para a criação de mais oceantechs, para não perder o bonde da digitalização e da inovação da economia global.


A Amazônia Azul é um oceano de oportunidades. Dá para virar a página da crise. É só querer e agir.


*André Fraga é Engenheiro Ambiental, Vereador de Salvador pelo PV, presidente da Comissão Especial de Emergência Climática e Inovação da Câmara Municipal de Salvador.


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