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Sonhos e devaneios com velas ao vento

*Coluna Saveiros da Bahia | Associação Viva Saveiro


Dias e noites de isolamento, distanciamento social, receios da virose maligna, saudade de saveiros, saveiristas, bebidas, comidas várias, lugares e trajetos inesquecíveis são os ingredientes desse vislumbre imaginário de um evento mágico e fantasioso próprio dos sonhos.


Soltando a imaginação: “Hoje é um dia ensolarado reunindo no Mercado Modelo todos os principais loucos sonhadores, cariocas, paulistas, fluminenses e bahianos (desculpe o Aurélio, baiano sem H seria filho de uma baía qualquer. Não faz jus ao filho da Bahia com H). Após algumas cervejas e petiscos no boteco da Jaci, damos início ao bordejo de três dos remanescentes saveiros da BTS: Sombra da Lua, É da Vida e Mensageiro do Destino.


Nas águas cálidas e acolhedoras da baía inflam-se as velas e partimos repletos de amigos e ávidos de novas aventuras. A bordo, Mestres Jorge e Jailton nos afazeres de uma moqueca e Vilma sempre risonha nos brindando com o mais delicioso dos acarajés; conversas e gargalhadas num ambiente festivo, próprio dos passeios nos saveiros. Após costear as praias da cidade baixa e subúrbios de Salvador, chegamos em Ilha de Maré. Visita aos saveiros XV de Agosto, Garboso e Sempre Feliz. Porto seguinte, Itaparica, com belezas naturais e visitas a ilustres pessoas da região, Vital Santos Souza, Bel Borba… e reabastecimento no boteco do Marvado e no bar do Negão.

Foto: Roberto Faria

E como sonho não respeita tempo e espaço, une dois rumos diversos como se fossem consequentes em fim de semana infinito, a próxima parada é na Barra do Paraguaçu com banho de mar e visita a Pato, nosso anfitrião costumeiro, com feijoada e mariscada à beira mar em João Careca. Assim, no rio Paraguaçu atracamos em Coqueiros, onde saveiros irmãos se aglomeram, em torno de 13 que resistem ao tempo transportando pedras e areia para construção na Ilha dos Frades.


Entre risos e causos chegamos a Cachoeira e São Félix, cidades históricas e cheias de atrações e beleza arquitetônica. Parada indispensável no boteco de Pedro Morotó. Em Maragogipe visita a Mestre Nute do majestoso saveiro Vendaval II, que não resistiu ao descaso dos órgãos de preservação da história náutica da Bahia e dolorosamente sucumbiu. Mais um tesouro que foi parar no fundo do mar.


Retornando nesse sonho enternecedor chegamos de volta à Itaparica, para através da contracosta, passarmos por lugares belíssimos e hospitaleiros como Baiacu, Mutá, Cações, Catu... até chegarmos a Cacha Pregos, último recanto da Ilha com belas praias e vista do continente da famosa praia dos Garcês e da Barra Falsa, perigosa para navegantes.


Seguindo o roteiro, nos inserimos no rio Jaguaripe e aportamos na bela cidade de Jaguaripe, 1ª vila nascida no recôncavo bahiano, com sua plástica natural e histórias pitorescas. Após compras de réplicas de saveiros e outras embarcações produzidas pela Escola de Arte Naval, vamos à Casa do Mangue na fazenda de Teca, onde se toma contato com a natureza de forma paradisíaca e, em seguida, parada imperdível no Bar de Renato.


Mestre Carlito, Sombra e Água Fresca, Teike Rize e Amigo de Verdade, saveiros recém-construídos, se juntam a nós num bordejo até Maragojipinho, recanto de especial importância artesanal, famoso por suas olarias, pelos artigos cerâmicos que foram e serão transportados por saveiros até Salvador, na Feira de São Joaquim, e daí até os mais distantes locais do País. Repletos de prazeres e conhecimentos históricos desses sublimes recantos e da ratificação da amizade e bem querência que nos une a todos os loucos sonhadores, retornamos ao nosso dia a dia.”


Acordando, constatamos que não foi sonho nem devaneio. Foi a memória viva concatenando fragmentos de eventos anteriores à pandemia que nos impede, ainda, de repetir. Aos saveiristas e a todos que nos apoiam, nós da Viva Saveiro desejamos saúde e que fiquem em casa, se puderem, pois teremos no pós-pandemia novamente bons ventos! Navegar é preciso!


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