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  • Foto do escritorMar Bahia

Tesouros do Porto da Barra: fortes reverenciam artistas amigos e apaixonados pela Bahia

Nos fortes do Porto da Barra, residem trabalhos, memórias e histórias de dois artistas que não nasceram na Bahia, mas que a adotaram de coração. No Forte São Diogo, encontramos o Espaço Carybé de Artes, dedicado a Hecctor Julio Páride Bernabó (Carybé), um argentino com alma soteropolitana e que deixou uma marca significativa na história das artes plásticas brasileiras. No Forte Santa Maria, vemos o Espaço Pierre Verger da Fotografia Baiana, em homenagem ao francês Pierre Edouard Leopold Verger, que também se apaixonou por Salvador e se tornou um dos fotógrafos mais importantes do nosso país. Dada a proximidade artística e pessoal entre eles, é justo que os espaços dados aos seus trabalhos sejam vizinhos.

Foto: Jefferson Peixoto

Abertos desde 2016, o Espaços Carybé e o Pierre Verger são geridos pela Prefeitura de Salvador, através da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult). A supervisora dos equipamentos culturais, Simone Lopes, ressalta que tem sido realizado um trabalho de dinamização desses locais, buscando revitalizá-los como parte de uma ação renovadora para a cidade.


“Os espaços culturais possuem agendamentos e realizam atividades temáticas pontuais, especialmente relacionadas a datas comemorativas. Os espaços da Prefeitura têm se empenhado em promover mensalmente essas dinamizações para que a sociedade perceba que esses locais podem ser ocupados e apreciados de diversas formas, não apenas por meio de visitações, mas também em outros encontros que abordam assuntos específicos”, completa.


Mergulho nos traços de Carybé – Carybé nasceu em 1911, em Lánus, distrito fronteiriço com Buenos Aires, na Argentina. Ele foi jornalista por formação, pintor, gravador, desenhista, ilustrador, mosaicista, ceramista, entalhador e muralista por paixão. Filho de pai cigano, tinha seis meses quando sua família se mudou para a Itália, onde ficou até os seus nove anos. Em 1920, passou a morar em Bonsucesso, bairro na zona norte do Rio de Janeiro. Quando completou 19 anos, voltou para a Argentina.


O artista aprendeu a desenhar em casa, vendo os irmãos mais velhos Arnaldo e Roberto, que eram pintores. Começou a carreira como cartunista, mas resolveu migrar para as tintas e pincéis. Em 1936, fez sua primeira exposição. Em 1938, veio à Bahia a trabalho, quando se apaixonou à primeira vista por Salvador, pela cidade e pelos costumes locais. Em 1950, voltou para morar.


“A obra dele muda a partir disso, para retratar nossa cultura. Ele pintou as festas de largos, no Rio Vermelho, no Bonfim, pintou o dia a dia dos terreiros. O grande diferencial do Carybé foi retratar a beleza daquilo que nós nem percebemos mais no nosso cotidiano”, pontua Jessica Freitas, mediadora e historiadora do Espaço Carybé de Artes.


Em uma entrevista à crítica de artes, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte, Matilde Matos, respondendo o porquê escolheu a Bahia como morada e como retrato de suas obras, Carybé diz: “Porque gostei. Procurei pra burro na América do Sul (o México eu ainda não conhecia) e encontrei o Peru e a Bolívia, que como aqui, são lugares de caldeamento, mas todos dois são muito fechados, muito sérios. A Bahia é alegre e por isso a escolhi”, expressou o pintor.


Já em 1957, se naturalizou brasileiro. Teve grande participação no cenário de renovação de artes plásticas na Bahia, ao lado de Mario Cravo Júnior (1923-2018); Genaro de Carvalho (1926-1971); e Jenner Augusto (1924-2003). Em 1981, publicou o livro Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, pela Editora Raízes. Também chegou a ilustrar livros do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014); Jorge Amado (1912-2001) e Pierre Verger (1902-1996), entre outros. O artista faleceu em 1997, em Salvador.


“Carybé foi um artista muito inspirador, não só por ter tido muita vontade de falar sobre o cotidiano das pessoas, mas pensar também no quanto elas podiam se ver na obra dele. Particularmente, gosto muito dessas temáticas relacionadas ao cotidiano e questões de identidade que são muito caras. Para além disso, ele inspirou muita gente a tentar, se dobrar, com sua multiplicidade de técnicas, já que em nenhum momento fez algo engessado. Ele é importante em diversos aspectos da nossa cultura, da nossa religiosidade, fez as pessoas buscarem os Orixás, os detalhes. São fragmentos importantes, principalmente, para o povo de santo, que consegue captar essas nuances", pontua Tamiles Doralício, artista e mediadora de artes do Espaço.


No local, é possível encontrar esse panorama da sua biografia, dos seus trabalhos, com mais de 500 obras digitalizadas do autor, através de uma experiência lúdica, onde os visitantes podem ter acesso a diversas pinturas, murais e materiais do artista, além de permitir momentos interativos em que você pode ser um personagem 3D do Carybé e até sentir que está pintando um quadro original do mesmo.


O local é composto por uma exposição totalmente virtual, onde é possível observar projeções das pinturas nas paredes, totens digitais com acesso ao acervo do autor, com informações biográficas da vida dele, é possível ver a réplica da mesa de pintura em que o mesmo trabalhava, painéis interativos, além de contar com duas mediadoras que fazem um tour guiado pela vida e obra do artista, como mostrado acima.


"A gente faz uma proposta de mediação, apresentando primeiro o que é o espaço de exposição digital, que difere da mediação de conteúdo físico. Primeiramente, é importante sinalizar e orientar o visitante de que se trata de um tour diferenciado, um momento de experimentar um museu digital. Vou mostrar o que temos em nosso acervo, que só está disponível devido à facilidade da digitalização. Por exemplo, os trabalhos de caderno do Carybé e as obras que ele não chegou a finalizar. Dessa forma, vou construindo com eles a noção de quem foi e o que temos do acervo dele aqui”, esclarece Jessica Freitas.


As imagens e influências de Verger – Verger aprendeu a fotografar com Pierre Boucher (1908-2000), em 1932, quando adquire sua primeira Rolleiflex. Desde então, colaborou com diversos jornais e revistas americanas, latinas e europeias, como Paris-Soir, em 1934; Daily Mirror, de 1935 a 1936; Life, em 1937; Match, em 1938; Argentina Libre e Mundo Argentino, em 1941 e 1942; e O Cruzeiro, de 1945 até fins dos anos de 1950.

Foto: Jefferson Peixoto

Em 1946, chega em Salvador para ficar. A partir desse momento, se encanta pela história, local e começa a se dedicar a registros e pesquisas das religiões de matrizes africanas e a cultura afro-brasileira. Suas fotografias se baseiam no cotidiano do povo baiano, do dia a dia dos terreiros e dos trabalhadores, pescadores e tantos outros. Se tornou um especialista na questão da diáspora africana e da religião iorubá, tendo publicado livros e diversas fotografias voltadas à temática. Em viagens de estudo sobre o assunto a Benim, na África ocidental, torna-se um iniciado no culto de divinação, com o insigne título de Fatumbi (renascido na graça de Ifá).


Em 1966, ele concluiu seus estudos de doutorado na Sorbonne (Paris, França), com uma tese que abordava o tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia nos séculos XVII ao XIX. Em 1974, ele ingressou como professor na Universidade Federal da Bahia (Ufba) e desempenhou um papel fundamental na criação do Museu Afro-Brasileiro, que foi inaugurado em 1982, em Salvador. Desde 1989, a Fundação Pierre Verger tem a responsabilidade de preservar seus 62 mil negativos fotográficos, sua extensa biblioteca e seu arquivo pessoal, além de difundir seu valioso legado nas áreas de antropologia e fotografia.


“O trabalho de Verger tem uma contribuição significativa para a compreensão da cultura material do povo negro. Suas fotografias desempenham um papel fundamental nesse contexto, especialmente quando se trata das materialidades do candomblé, que são elementos mais efêmeros. As fotografias de Verger são documentos extremamente importantes, preservados ao longo dos anos, e revelam muito sobre a realidade da Bahia nas décadas de 40, 50 e 60, durante o período em que ele esteve presente na região. Sua contribuição foi essencial para a preservação da imagem de uma Bahia que muitos afirmam não existir mais, mas que persiste por meio de sua cultura e da religião”, afirma Bruno Santos, estudante de museologia e mediador do Espaço.


No Espaço Pierre Verger de Fotografia Baiana, é possível encontrar trabalhos de mais de 100 fotógrafos baianos ou que fixaram residência na Bahia, além de um acervo disponibilizado pela Fundação Pierre Verger, de forma colaborativa. Da mesma forma que o de Carybé, o espaço conta com pontos de totens digitais e interativos, para que os visitantes fiquem imersos na experiência das fotografias do local.


Os turistas podem experienciar registros do cotidiano do povo baiano e da cultura soteropolitana, através das fotos disponibilizadas por lá. "Estou achando o Espaço muito legal e interativo, tanto na parte descritiva, mais analógica, com as fotos, quanto na parte mais tecnológica. Eu não conhecia Pierre Verger e tem sido uma experiência incrível”, expressa Brenda Mendes Lima, vinda da cidade de São Paulo.


Amizade que transcende fronteiras – Carybé e Verger foram grandes amigos, unidos pela arte, pela fé e pelo amor à capital baiana. Eles foram contemporâneos e colaboraram juntos em diversas ocasiões durante suas vidas, tal qual outros renomados artistas que também cultivaram uma grande amizade com os estrangeiros, como o escritor Jorge Amado. Esse trio ficou conhecido como os 'Obás da Bahia'. Os três eram frequentadores do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, fundado em 1910 e localizado no bairro do Cabula, onde exerciam o cargo de Obá, que representam os ministros de Xangô, na tradição do candomblé.


Além disso, eles também foram grandes parceiros de Dorival Caymmi, com quem realizaram diversas colaborações ao longo de suas carreiras. Na introdução do livro “Carybé, Verger e Caymmi”, Fernando Alves (sócio presidente da PricewaterhouseCoopers – Brasil), afirma: “De origens e formações distintas e unidos por uma visão muito particular sobre os mistérios do mar e da gente da Bahia, eles descortinaram para o mundo, as cores e a cultura afro-baiana. Três artistas que só se tornaram amigos pela coragem de romper fronteiras. O legado deixado por esses grandes ‘brasileiros’ transcende suas expressões artísticas e incursiona pela característica comum de abertura ao novo e da curiosidade de culturas desconhecidas”.


Funcionamento – A curadoria do Espaço Verger da Fotografia Baiana é de Alex Baradel, diretor técnico da Fundação Pierre Verger, que divide os créditos de pesquisa/curadoria com Célia Aguiar, fotógrafa e professora de fotografia. O projeto expográfico é assinado pelos arquitetos Fritz Zehnle Jr e Rose Lima. No Espaço Carybé de Artes, a curadoria é de Solange Bernabó e o projeto expográfico da empresa Blade Design (Joãozito Pereira e Lanussi Pasquali).


Ambos os espaços têm recebido visitas de escolas públicas e particulares, além do projeto Visita Azul, que traz crianças no espectro autista para as visitas nas exposições. As agendas são abertas para as instituições que quiserem marcar para ir aos locais.


Os equipamentos funcionam de quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até as 17h). Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), e dão direito à visitação de ambos os Espaços. Às quartas-feiras, a entrada é gratuita. Os residentes em Salvador que apresentarem comprovante pagam meia-entrada todos os dias. São proibidos alimentos e bebidas durante toda a permanência no local.

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