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Mario Mukeka: Boca do Inferno

*Por Mário Mukeka

"Que falta nesta cidade? Verdade. Que mais por sua desonra? Honra. Falta mais que se lhe ponha? Vergonha". Dizia Gregório de Matos, uma década após a guerra holandesa, depois da invasão a Salvador, o Recôncavo Baiano nunca mais seria mesmo. A pouca dignidade e a escassa organização que existiam se perderam com a desordem que se instalou.


Os novos governadores da capitania da Bahia eram lacaios de quinta categoria, e para reparar os estragos, várias taxas foram acrescidas aos impostos do açúcar. Era impressionante a quantidade de tributos. Assim que a carga chegava a Salvador, era preciso pagar a um trapicheiro uma pataca de frete de dois vinténs de aluguel. Também se pagava a comissão de trapicheiro, caso se vendesse alguma caixa. Depois vinham as taxas, os caixões, pregos, carretos, guindastes, direito de subsídio da terra, as descargas, os armazéns, as alfândegas, taras e marcas, a avaliação e os consulados. Por estas várias formas de espoliação legal, os produtores de açúcar estavam à beira da ruína.


Para o funcionamento de um engenho eram necessários vários aviamentos, incluindo aí a força de trabalho escravizada. Só na moenda, eram envolvidos entre 20 e 30 negros, além do feitor. Esta cifra deve ser multiplicada por dois, pois o engenho funcionava noite e dia, portanto, número correspondente de trabalhadores substituía, durante a noite, labuta extenuante era capaz de matar alguém pelo cansaço, e não raro, sem o perceber, muitos metiam a mão entre os eixos da moenda, sendo preciso que o feitor lhes cortasse o braço atingido, antes que fossem inteiramente estraçalhados pela máquina.


A cidade encantada e o espelho de Oxalá à sua frente guardam e pagam esse carma. Até hoje, algumas cenas parecem surreais. No início do século XX, o navio Cabo Frio, carregado de centenas de máquinas de costuras inglesas, se arrebentou contra as pedras do Farol da Barra. Centenas de negros descendentes dos escravos que tinham sido explorados por europeus, saquearam a carga, recolhendo as máquinas que flutuavam ou mergulhando a pouco profundidade para recuperar as que estavam no fundo. E foi assim que Salvador criou, na época, o maior contingente de alfaiates do Brasil.


O algodão já era produzido no Recôncavo Baiano e muitos negros conseguiram juntar seu patrimônio, montando seus próprios negócios.


Vejam como o destino intervém das maneiras mais exóticas. Se estas máquinas chegassem às lojas, jamais um negro poderia tê-las comprado. O resgate de uma tragédia quase sempre está ligado a uma reação cármica e as dívidas são acertadas no peito e na raça, independente da vontade de quem deve ou do desejo do credor. E a Bahia, pelo visto, parece um tribunal celestial, onde os anjos tocam suas trombetas anunciando a redenção.


* Mario Mukeka nos deixou em 2021. (Leia aqui). Mas seguimos compartilhando um pouco do seu legado aqui no Mar Bahia.


Era pirata, cantor, compositor, escultor, mergulhador e dono de outros inúmeros talentos que transbordam na Baía de Todos-os-Santos. Estes e outros contos e causos são encontros no seu livro "Pirataria no Mar da Bahia." (Clique aqui e compre o seu exemplar).

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