• Mar Bahia

Em busca de oceania após a pandemia

*Por José Rodrigues de Souza Filho e Bárbara Tércia

A visível melhora na qualidade de ambientes costeiros e oceânicos em diversas áreas do planeta, devido às restrições de uso impostas pela Pandemia da COVID-19, deve ser avaliada com cautela, mas também com esperança em busca de uma cidadania dos oceanos, a que propomos chamar oceania. Etimologicamente, a palavra oceania vem do português brasileiro e temos como inspiração os conceitos de cidadania e florestania, buscando compreender todo o conjunto de relações e direitos de um indivíduo com os outros e o ambiente marinho, ou seja, um conjunto de valores sociais que determinam deveres e direitos do indivíduo que vive de forma diretamente ligada ao ambiente marinho (costas e oceanos).


Entre os diversos estudos que comprovam a melhoria ambiental durante a atual Pandemia, destacamos artigo recém publicado na prestigiosa revista científica internacional Biological Conservation, “How does the beach ecosystem change without tourists during COVID-19 lockdown?” (2021), onde pudemos examinar bioindicadores de 29 praias turísticas urbanas em sete países latino-americanos e avaliamos sua resposta ao bloqueio sobre alguns estressores antrópicos relevantes, como poluição, ruído, atividades humanas e densidade de usuários, bem como, a presença de animais e plantas neste período, devido as restrições impostas como medida de combate a Pandemia da COVID-19.


Nesta pesquisa foram avaliadas três praias de Salvador: Porto da Barra, Farol de Itapuã e Ribeira (trecho entre a Cabana do Bogary e a Igreja de Nossa Senhora da Penha). A análise e comparação dos dados permitiu observar que apesar da extensa história de atividade humana nessas praias antes da proibição de uso, esses ecossistemas apresentam capacidade de recuperação, com aumento da biodiversidade e da funcionalidade do sistema em resposta à menor alteração ambiental pelos estressores. Como pensamos inicialmente, o estudo sugere uma resiliência impressionante desses ambientes e a possibilidade de sua conservação em prol da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos em nossa cidade.


Corroborando com o estudo acima citado, a análise do monitoramento de Resíduos Sólidos em Praias Turísticas de Salvador, realizado desde 2019, no âmbito da Red Iberoamericana de Gestión y Certificación de Playas (@proplayas), indica uma forte diminuição na presença do chamado “lixo marinho” nas praias de Salvador durante os períodos de fechamento das praias para o uso recreacional e turístico, com destaque para a praia do Porto da Barra onde se observa um controle mais efetivo por parte dos agentes públicos.


Desta forma, apesar de sabermos que as implicações positivas na mudança da maioria dos bioindicadores e o decréscimo da quantidade de resíduos sólidos nas praias durante o bloqueio são provavelmente temporários, e que atualmente não está claro como a conservação se sairá após a pandemia, esperançamos que as informações coletadas nestes estudos possam contribuir para estratégias de conservação de ecossistemas sensíveis como as praias arenosas de alto uso turístico e outros ambientes marinhos.

Porto da Barra cheio e vazio, respectivamente

Geograficamente, nós soteropolitanos, somos privilegiados por estarmos praticamente cercados pelo Oceano Atlântico e a belíssima Baía de Todos-os-Santos, Capital da Amazônia Azul*** e neste contexto, é imprescindível despertar a oceania em nossa sociedade e a importância da consciência e participação social na conservação da biodiversidade e manutenção de serviços essenciais a própria cidade, tais como lazer, recreação e atividades turísticas.


Portanto, em zonas costeiras e oceânicas os sujeitos que nela vivem e prosperam precisam exercitar cotidianamente sua oceania, visando a melhoria da qualidade de vida hoje e para as gerações futuras.


* Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano e Doutor em Geologia Marinha e Costeira.


**Bárbara Tércia é Mestre em Artes Visuais (UFRJ) e idealizadora do Ateliê Portátil de Artes


**** Área de 5.7 milhões de quilômetros quadrados (km2) de espaço marítimo sob jurisdição do Brasil.



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