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Leonardo Chicourel: "Chegar em Salvador foi o dia mais emocionante da minha vida"

Atualizado: 23 de Ago de 2018

Com 34 anos, o baiano Leonardo Chicourel realizou um sonho em 2017 : o de participar da maior regata transatlântica do mundo: a Transat Jacques Vabre, saindo em novembro de Le Havre, na França, e chegando a Salvador. Ao lado do velejador angolano-brasileiro, José Guilherme Caldas, Leo navegou cerca 4500 milhas (aproximadamente 9 mil km) durante 21 dias, 22 horas e 59 minutos. Agora, o que não faltam são muitas histórias para guardar – e contar.



MAR BAHIA - Em meados de 2017 nos encontramos no meio da Baía de Todos os Santos e entre uma conversa e um gole de cerveja, perguntei: “Leo, depois de tantas velejadas, você não pensa em participar da Jacques Vabre?”. Você lembra o que respondeu (risos)?


LEONARDO CHICOUREL - Acho que foi: “ Ainda não, mas se rolar eu encaro!”. (Risos).


MB - Como aconteceu o convite e esta possibilidade se tornou uma realidade?


LC - Eu comecei a trabalhar como skipper há uns dez anos atrás e entre estes trabalhos eu conheci José Guilherme, que é um angolano que mora no Brasil há bastante tempo. Então, comecei a transportar o barco dele pela costa, já que ele não tem tempo pra velejar como gostaria (é um neuroradiologista muito solicitado). Em 2013, pintou uma oportunidade, através de um patrocínio (Angola Cables) captado por ele para participar na Cape 2 Rio, e em janeiro de 2014 viabilizamos esse projeto e outras competições como a Recife-Fernando de Noronha (Refeno). Depois, em 2017, José Guilherme - que é um cara super desbravador - nos inscreveu na Transat Jacques Vabre, cerca de três meses antes da largada em novembro.



MB - Você já conhecia bastante o barco onde competiu na Transat. Fale um pouco como foi esse período de preparação e qual foi o tempo entre oficializar sua participação e largar em Le Havre.


LC - Pois é, terminou que não corremos no barco que conhecíamos, de fato. Por problemas diversos, tivemos que nos adaptar a um outro barco, da mesma classe (Class 40). Então, foi pouco mais de um mês pra se adaptar a este, que realmente corremos na regata. E olha: esse barco que competimos ainda estava sem mastro e com uma série de ajustes a serem feitos. Imagine...mas, deu tudo certo no final.


MB - A participação de representantes brasileiros nesta competição, e em outras de caráter internacional, vem crescendo, mas ainda é tímida. A presença de competidores maciçamente estrangeiros e com maior experiência intimidou vocês de alguma forma?


LC - Não. O que mais intimida a gente numa competição dessa não é nosso adversário, é o próprio mar. Até porque você não tem no seu visual esses competidores em contato direto. A gente compete contra gente mesmo porque é você quem dita o seu ritmo. Então, apesar de você ter a referência de posição deles, você não sabe a vela que ele está usando, que problema ele está passando...No fundo, o que vale é que todos são homens do mar e, acima de qualquer coisa na competição, conta mesmo é a vida que está nela.


MB - A rota da Jacques Vabre é um caminho secular feito por muitos navegadores. Neste longo caminho, quais foram os trechos mais difíceis e por que?


LC - As temperaturas muito baixas, sobretudo pra gente, que não está acostumado. A saída da regata em Le Havre já foi bem complicada, principalmente no Canal da Mancha, que tem condições muito instáveis, além dos problemas de quebras que tivemos. Então, esse trecho inicial foi bem complicado, quando precisamos parar para fazer reparos e perdemos cerca de 30 horas na competição. Depois disso, pegamos a Linha do Equador e novamente condições difíceis com os Doldrums e a Zona de Convergência, onde tudo é extremamente instável. A partir daí, foi ficando mais tranquilo até chegarmos a Salvador.



MB - Como era o dia a dia, a rotina de vocês a bordo?


LC - Quando não há problemas a resolver, a rotina é feita dentro de turnos, de 2h em 2h para cada velejador, e aí você é um pouco livre pra descansar, comer, etc. Banho, basicamente só de água salgada e com 1L de água doce pra tirar o sal. Nosso primeiro banho após a largada foi com dez dias devido ao frio. Quando tirei a bota, nesse período, precisei jogar detergente Veja no meu pé (Risos). A alimentação era basicamente pronta, com caldos, comida em gel, sopas e muito café, água e chocolate.


MB - Vocês tinham uma previsão de colocação na prova ou a pretensão era prioritariamente concluí-la?


LC - A gente queria chegar entre os dez. Seria já uma excelente posição. Largaram 18 barcos e, entre desistências e abandonos, restaram doze. Ficamos na penúltima colocação.


MB - Houve algum momento que tenha sido muito marcante ou inusitado?


LC - Muito marcante pra mim foi uma parada em Cameret (Bretanha), onde, com muito frio, tivemos que fazer esse pit stop compulsório para reparos. Subi no mastro umas quatro vezes e chega uma hora que dá uma desanimada... E é uma cidade com uma atmosfera triste...Foi um recomeço complicado, mas de certa forma deu muita força para seguirmos em frente. Depois disso, com certeza, foi a chegada em Salvador – que foi o dia mais emocionante da minha vida. É muito doido porque a energia que você recebe é inexplicável...e foram muitas homenagens...não é pela vaidade, sabe? É pelo carinho. Extrapola os limites de quem é da família, quem são os amigos, todos se emocionam e querem te abraçar de alguma forma...isso é incrível, independente do resultado.


MB - Vocês manifestaram desejo de participar da edição da Transat em 2019. Já há decisões se na mesma classe? O que pensam em fazer de diferente?


LC - Pois é, talvez a classe ideal para gente seja a mesma que competimos, a Classe 40. Até porque participar já é muito caro, e quanto mais avançada a classe, mais grana e mais dedicação exclusiva é preciso ao projeto, com bastante tempo de antecedência. Quanto à minha participação, depende muito do que vai acontecer. José é um grande amigo e dono do projeto, mas ele pode vir a ter a opção de correr a regata com um francês ou um competidor com um nível mais alto. Não tenho problemas com essa possibilidade, por isso, ainda é cedo pra confirmar. Se couber a minha participação eu ficarei muito feliz.


MB - Você é um skipper profissional, velejando em grandes competições e realizando diversos deliveries pelo brasil e pelo mundo. Fale um pouco quando começou essa paixão pelo mar e a partir de quando percebeu que o hobie poderia evoluir para uma carreira.


LC - Quando eu comecei a velejar eu nem gostava de barco (Risos). Sou de Itabuna e

corri de kart durante algum tempo, mas meu pai já velejava, já tinha esse contato com o mar e decidiu comprar um veleiro. A partir daí a primeira experiência foi vento sul, água entrando no barco, uma doideira, mas ali eu comecei a gostar daquilo, daquela adrenalina...foi paixão à primeira vista. Aí comecei a evoluir nas competições, primeiro dentro da Baía de Todos os Santos, depois as oceânicas e sempre admirei muito a vida de skipper. Não vou mentir que não houve muito incentivo para que eu seguisse essa carreira de skipper profissional, mas eu já tinha largado a faculdade de arquitetura e decidi comprar meu sonho e tentar viver disso. Abri e sigo abrindo mão de muita coisa para viver do que eu gosto. É muita paixão, mas também muita responsabilidade. Eu nunca imaginei chegar onde eu cheguei...mas, as coisas foram e seguem acontecendo, com muita batalha, muito trabalho e muita luta.


MB - O melhor de voltar à terra firme é...


LC - Receber o abraço dos amigos e da família, sem dúvida.


MB - O melhor do mar da Bahia é...


LC - Nem dá pra explicar, sabia? O mar da Bahia é minha casa, está acima de conhecer tecnicamente, mas é saber que onde você chegar vai ser acolhido, vai rever e conhecer gente...isso é o mar da Bahia: os encontros e reencontros que acontecem e – ainda bem – vão continuar acontecendo por aí.


“A chegada em Salvador foi o dia mais emocionante da minha vida. É muito doido porque a energia que você recebe é inexplicável...e foram muitas homenagens...não é pela vaidade, sabe? É pelo carinho. Extrapola os limites... ”

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Fotos: Transat Jacques Vabre/Divulgação/Leonardo Chicourel

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