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O futuro dos saveiros da Bahia: exposição e aula inaugural trazem reflexões para a salvaguarda deste patrimônio imaterial

Foto do escritor: Mar Bahia
Mar Bahia
3 de set.
4 min de leitura

O Museu do Recôncavo recebe a partir de 13/09/2026 a abertura oficial da exposição “A Criminalização do Saber”, uma imersão na história, na técnica e na memória das embarcações tradicionais brasileiras, com foco nos icônicos saveiros de vela de içar da Baía de Todos os Santos. A mostra, instalada na cozinha do Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, transforma o ambiente em um convite à memória e ao conhecimento, colocando em evidência o ofício dos mestres carpinteiros navais – detentores de um saber que, apesar de reconhecido como patrimônio imaterial de Salvador em 2024, ainda enfrenta desafios de regulamentação e valorização.


Foto: Will Recarey
Foto: Will Recarey

A abertura da exposição coincide com a aula inaugural do curso Arquitetura Naval Tradicional, iniciativa do Estaleiro Escola Embrião que marca o início de uma jornada de 240 horas para transmitir os conhecimentos desses mestres às novas gerações.

Uma exposição que navega entre o passado e o futuro.


No centro da sala, o visitante se depara imediatamente com o elemento central da narrativa: o Traquino, um saveiro de vela de içar com quatro metros de comprimento. Mais do que uma peça expositiva, ele é apresentado como um símbolo de esperança para a continuidade da cultura da construção naval. A partir dessa embarcação, o curso de Arquitetura Naval Tradicional, previsto para setembro de 2026, utilizará sua construção, comercialização e uso em aulas práticas para gerar recursos financeiros fundamentais para a valorização e salvaguarda dos mestres carpinteiros navais.


O percurso expositivo convida o público a uma viagem detalhada:



• Imagens e painéis: A mostra é aberta com uma obra do fotógrafo Nilton Souza, que imortaliza uma regata com vários saveiros. Além disso, um painel dedicado aos mestres carpinteiros navais e outro om o detalhamento construtivo do Traquino revelam a engenhosidade por trás de sua estrutura.

• Réplicas e escalas: Uma réplica na escala 1/20 da embarcação central permite ao visitante compreender a relação de proporcionalidade entre as maquetes expostas e as embarcações reais, estabelecendo um diálogo direto entre a representação e o real. Outras réplicas em escala reduzida (1/20) estão dispostas ao longo do ambiente.


• História e cotidiano: Textos narram um histórico da arte de construir embarcações tradicionais ao longo dos tempos. O visitante também encontra o quadro do saveiro Sombra da Lua – embarcação tombada pelo Iphan em 2012 – exibido com seu plano de linhas, a representação técnica que mapeia a topografia do casco. Uma réplica desse mesmo saveiro, carregando louças de Maragogipinho, que simbolizam o último tipo de carga transportada por essas embarcações rumo à Feira de São Joaquim.


• Cozinha a bordo e rotas: Um painel revela os utensílios utilizados para cozinhar a bordo dos saveiros, transportando o visitante da cozinha do casarão para a cozinha dos mestres. Dois painéis em forma de mapa – uma carta náutica e uma montagem visual – evidenciam as diferenças entre as rotas percorridas pelos saveiros e as dos caminhões, destacando contrastes de tempo, distância e custo no transporte de alimentos, e valorizando a eficiência das vias aquáticas.


• Ferramentas e movimento: A imersão prossegue com um painel dedicado às ferramentas utilizadas pelos mestres carpinteiros na construção dos barcos utilizando ilustrações de Lev Smarcevski, autor do livro “Graminho, a Alma do Saveiro” .


• Arte e referências: O visitante aprecia, ainda, um painel com os croquis do artista que eternizou a graça das embarcações à vela baianas. O percurso conta ainda com um painel que reúne imagens de livros fundamentais para o estudo do tema, acompanhado de uma bibliografia completa.


Curso Arquitetura Naval Tradicional: formando os novos guardiões do saber


O curso, que tem início com esta aula inaugural, é a materialização do projeto Estaleiro Escola Embrião. Com carga horária total de 240 horas (150 práticas e 90 teóricas), a formação está estruturada em quatro eixos principais:


1. Ofício Mestre Carpinteiro Naval: 90 horas práticas, onde os alunos acompanham mestres no processo de construção de um saveiro de vela de içar com 4 metros de comprimento.


2. Modelismo e Vela: 30 horas práticas, cobrindo medição, corte e costura de vela.


3. Design Profissional de Embarcações: 90 horas teóricas, abordando desde metodologia de projeto, coeficientes adimensionais, estudo de similar, tipos de cascos, estabilidade, métodos de construção, até sistemas de bordo e gerenciamento de projeto.


4. Modelagem e Fabricação Digital: 30 horas práticas, com introdução ao software Rhinoceros 3D e fabricação digital.


Cada eixo gerará certificados de formação independentes, e a conclusão de todos os eixos concederá a certificação completa em Arquitetura Naval Tradicional (240 horas). O curso é voltado para jovens adultos, residentes em Salvador, com formação mínima do ensino médio.


Mestres e parceiros: a alma do projeto

O projeto é conduzido por uma equipe de mestres carpinteiros navais reconhecidos, representantes do Registro Especial do Patrimônio Imaterial de Salvador, como Luiz Antônio da Silva, Antônio Miranda da Silva, Gitani Welington da Conceição, Cosme Henrique Mendes Rocha, Nilton Silva dos Reis e Ubiracy Claudio Souza Portugal – este último, projetista do Traquino. A coordenação é de Marcelo Filgueiras Bastos, arquiteto e idealizador do Projeto IÇAR, autor do dossiê que resultou no reconhecimento do ofício como patrimônio imaterial.


O engenheiro naval Luiz Felipe de Carvalho e o Arquiteto Naval Cassio Neres também integram o corpo docente. A proposta do Estaleiro Escola Embrião se alinha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU: ODS 4 (Educação de Qualidade), ODS 7 (Energia Limpa e Acessível), ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico) e ODS 10 (Redução das Desigualdades), ODS 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima).


Serviço:

• Evento: Abertura da exposição “A Criminalização do Saber” e aula inaugural do curso Arquitetura Naval Tradicional

• Data: 13/09/2026

• Horário: 10:00 as 12:00

• Local: Museu Wanderley Pinho – Via Matoim - Enseada de, Candeias - BA, 43800-000, Brazil

•Entrada: gratuita mediante inscrição no link:


Acompanhe também as redes sociais do Projeto IÇAR: @icar.projeto (Instagram e demais plataformas).

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