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Luciana de Castro fala sobre o Exu Submerso nas águas da BTS


Um lugar sempre esconde mais do que a gente imagina. Se ele for nas águas da Baia de Todos, certamente haverá muito mais. O Mar Bahia conversou com *Luciana de Castro, mergulhadora e Doutora e Mestre em Arqueologia, Bacharel e Licenciada em História, que recentemente lançou o livro "O Exu Submerso: Uma Arqueologia da Religião e da Diáspora no Brasil", e que fala sobre as curiosas histórias sociais e culturais da região de Águas de Meninos, em Salvador.


Exu Submerso. Foto: André Lima

MAR BAHIA - Como nasceu a ideia do livro e quanto tempo de pesquisa você levou para produzi-lo?


LUCIANA DE CASTRO - A ideia do livro nasceu da vontade de extrapolar as barreiras da produção científica universitária. Acredito que o conhecimento genuinamente é público e os cientistas precisam estar engajados em difundir, comunicar e reverberar as pesquisas, os dados e as informações decorrentes da investigação. Além de ultrapassar as barreiras, o livro surge como uma forma de garantir que o artefato identificado, hoje não mais visível por ter sido aterrado por atividades do Porto de Salvador, alcance o povo de santo, as comunidades tradicionais e a sociedade civil. A pesquisa durou dois anos (2011-2013).


MB - Quando foi descoberto o assentamento de Exu e o que ele representa nesse contexto submerso?


LC - Ele foi identificado em 2010 por André Lima, mergulhador profissional e por Leandro Duran, arqueólogo subaquático. O assentamento de Exu apresenta um contexto de transformação da paisagem comercial e portuária de Salvador ao longo do século XX e fomenta outras posturas metodológicas para o estudo da Diáspora em cidades coloniais de historicidade escravocrata. A indicação é pensar a presença negra em Salvador por meio dos referenciais da liberdade, da propriedade intelectual e da cosmopolítica do povo de santo, que está para além da instituição do Candomblé e avança para outras formas de relação com o universo mítico dos Orixás/Voduns/Inkisses.

Foto: Luciana de Castro

MB - Que outras curiosidades você poderia destacar nessa região de Água de Meninos e que já foi tão importante no cenário econômico e cultural de Salvador?


LC - Essa é uma região muito cara para a formação da cidade de Salvador. Até o final do séc. XIX essa região oficialmente integrava o Porto de Salvador, que ia da Gamboa até Itapagipe, e estava caracterizada como área de descanso para os trabalhadores e reparo de embarcações menores. Também faz parte de um contexto sucessivo de feiras livres. Na década de 1930 a "Feira do Sete" sofreu um incêndio e foi reordenada para Água de Meninos, permanecendo até um próximo incêndio que forçou a transferência para o lugar, hoje identificado como "Feira de São Joaquim".


MB - Há outros sítios submersos na Baia de Todos os Santos que você destaque com curiosidades interessantes?


LC - Sim, o mar da Baía de Todos os Santos possui um acervo patrimonial submerso inenarrável e ainda desconhecido. O que existe hoje são projetos que buscam mapear os naufrágios, no entanto, os próprios sítios de naufrágios revelam parte da história do tráfico transatlântico de africanos para o Novo Mundo. Na Boa Viagem, no contexto do naufrágio de Nossa Senhora do Rosário e Santo André do século XVIII, há presença de búzios acumulados, indicando um carregamento intencional. Esses búzios, também nomeados de Cauris, por muitos séculos foram utilizados como moeda de transação e símbolo de prosperidade e riqueza dos reinos da África Ocidental, particularmente do Reino do Daomé.

Foto: Andre Negreiros

MB - Você é doutora em arqueologia e pesquisadora de um universo recheado de misticismo e muitas histórias. Fale um pouco dessa mistura de saberes entre academia e religião e da sua relação com mar da Bahia.

LC - Meu lugar de fala é a fronteira, me situo no imbricamento da ciência e da religião. Diferentemente da lógica dos pesquisadores que mergulham no religioso durante ou pós conclusão de estudos, a minha relação é anterior. Fui iniciada no Candomblé com 15 anos, logo minha trajetória acadêmica foi modelada pela minha existência religiosa. Na graduação eu estudei o silêncio como mecanismo comunicacional no interior dos terreiros de candomblé. Meu primeiro mestrado estava interessado em compreender o segredo e o ritual de Iyami no Candomblé, tendo minha mãe consanguínea e meu babalorixá como protagonistas da trama etnográfica.


O segundo mestrado foi o Exu Submerso, explicado anteriormente. O primeiro doutorado buscou compreender o patrimônio negro na borda do mar da Baía de Todos os Santos, especificamente no sítio da Preguiça. E foi inevitável correlacionar a historicidade das quitandas entre os séculos XVII-XIX e a sua presença como ritual litúrgico de iniciação no Candomblé, como modo de preservar a tradição do empreendedorismo africano. Atualmente no exercício do segundo doutorado em Antropologia, estou interessada em compreender os vínculos e o processo de associação do religioso com os Pankararé de Brejo do Burgo na região do Rio São Francisco baiano a partir de uma discussão acerca dos significados ocultos dos materiais, atos e ambientes acessados e construídos. Essa proposta atual amplia a potência do mar da Baía e alcança outros corpos aquáticos de grande envergadura para ocupação e povoamento do Brasil que é o Velho Chico.


* Luciana de Castro é Bacharel e Licenciada em História pela Universidade Católica de Salvador, Mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, Doutora e Mestre em Arqueologia pela Universidade Federal de Sergipe e Mergulhadora científica (NAUI/LAAA-UFS). Para adquirir o livro entre em contato com a autora pelo

luciana.dcnn@gmail.com


Fotos: André Lima/Luciana Novaes/Andre Negreiros


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