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O vibrante esplendor dos Saveiros de Vela de Içar

*Coluna Saveiros da Bahia | Associação Viva Saveiro


Nós da Viva Saveiro, atentos aos relatos de apoiadores e amantes dessas embarcações seculares, pedimos licença para mixar e expor trechos de narrativas de Regina Padilha, que sente na alma e no coração o vibrante esplendor dos saveiros de vela de içar.

Saveiro oh! Saveiro! Como você é inspirador!


Saveiros de popa torada, rabo de peixe, peneiro, centenários vetustos como o "Sombra da Lua" e "É da Vida" ou novinhos em folha como o "Mensageiro do Destino", "Mestre Carlito", "Amigo de Verdade", "Sombra e Água Fresca", "Marujo" e outros mais que os bons ventos da grande Bahia, tem inspirado o renascimento, ainda que lentamente.


A bordo da sofisticadamente simples e eficiente engenhoca flutuante voltamos ao tempo das procissões e romarias católicas ou do povo de santo, carga de cerâmica para a Feira de São Joaquim, mudanças entre as ilhas e romances. Poucas cargas são hoje transportadas, além de nostalgia e inspiração para artistas como Bel Borba, historiadores, fotógrafos, turistas e ilustradores.


Foto: Claudiomar Gomes

Os mestres saveiristas, sem mercado de trabalho nesta quarentena, aguardam reparos necessários para o retorno ao mar. Passado o “inverno”, vamos tirar o saveiro com a vara nos peitos até achar o vento, levantar a carangueja, acender o fogão, sapecar o fumeiro de Maragogipe, cortar tempero pra muqueca e deitar falação até cansar. Simples assim.


Temporais ou soalheiras, pirajás ou nordestões, tudo é vento bom e motivo de alegria e animação. Velas cambando conforme a brisa, escotas controladas, cana de leme na canela, o cheiro da feijoada, o sol na cara, tudo é ótimo sempre. É uma experiência zen encarar uma “soaeira” (calmaria) na noite sem aragem, fria e molhada, maré baixa, empurrados pelo rio Jaguaripe, embaixo da ponte do Funil.


A conversa continua até que Mestre Jorge, antes da aurora, sente a maré vindo, levanta a âncora e nos comanda a todos, obedientes a nos colocar de acordo. Aí sentimos a autoridade, nos tornamos figurantes de Pierre Verger, modelo para Calazans Neto, inspiração para Caymmi, Jorge Amado e Gerônimo, dissecados por Lev Smarcevski e Pedro Agostinho. Reaparecemos na paisagem com Nilton Souza e Roberto Faria em suas obras fotográficas.


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