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Uma rampa abandonada à beira do cais em Salvador

Se tem uma coisa que machuca um coração apaixonado pela Baía de Todos-os-Santos é passar pela Rampa do Mercado (Modelo), gente pra cima e pra baixo, e vê-la sem saveiros, sem projetos, sem alma. Às vésperas do aniversário de 473 anos de Salvador, completados nesta terça (29), levantamos a discussão sobre a decadência de um dos cenários mais contemplados da cidade.

Foto: Site Mar Bahia

O marco icônico da era de ouro de uma Bahia viva e rica culturalmente, sobretudo, cantada, escrita e fotografada por Jorge Amado, Carybé e Verger, hoje é o reflexo de uma ausência - de interesse e sentido - tanto pela população, quanto pelo poder público, que não valoriza a importância da Rampa na identidade náutica e histórica de Salvador.

Foto: Salvador Antiga

Recentemente, a prefeitura anunciou a recuperação do monumento à Cidade de Salvador chamado "Fonte da Rampa", de Mário Cravo, mas, além disso, nenhuma ação para revitalização da Rampa propriamente dita, nem tampouco qualquer projeto que resgate a tradição das feiras e dos saveiros.


Em conversa com o Mar Bahia, Roberto Bezerra, da Associação Viva Saveiro, falou um pouco sobre esta situação. "É cansativo. Diversos projetos foram entregues, ideias lançadas, mas de concreto, nada. Os governos passam e, na prática, os saveiros e a cultura da cidade e da navegação vão sendo renegadas. Em pouco tempo é provável que estas embarcações milenares nem existam mais na Baía de Todos-os-Santos"


Foto: Salvador Antiga

História

De acordo com documentos do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), a origem da Fonte da Rampa do Mercado tem relação com um acidente que causou a perda do antigo Mercado Modelo após o incêndio que o destruiu no final da década de 60 do século XX.


"Devido à modificação do sistema viário foi criado um espaço vazio entre a nova via e a Rampa do Mercado. O então prefeito resolveu valorizar a área e, para isso, solicitou ao escultor Mário Cravo Junior, em 13 de janeiro de 1970, a construção da fonte medindo aproximadamente 12X10. Tal fonte, pelo grande valor artístico e cultural, tornou-se significante marco da cultura baiana, na simbiose com o mar, com as velas dos barcos, com as curvas da topografia da cidade do Salvador, com o barroco das igrejas, das construções coloniais e no seu contraponto com a volumetria vertical da torre do Elevador Lacerda".

Foto: Fundação Casa de Jorge Amado

Entre os anos de 1912 e 1915, o Mercado Modelo era o principal centro de abastecimento da cidade, por isso, a rampa funcionava como um pequeno porto que recebia as centenas de saveiros, que traziam variados insumos do Recôncavo Baiano para a capital. Após quatro incêndios, o Mercado segue em atividade, ainda lutando para preservar sua identidade e movimento econômico durante o ano, mas a rampa, que já serviu até de "vista de luxo" para açougue, posto de gasolina e carcaças de embarcações, segue inativa culturalmente, sem qualquer projeto que a resgate a fim de dar continuidade ao seu contexto local e histórico.


Jorge Amado escreveu inúmeras páginas sobre a Rampa, desde o lançamento do “Bahia de Todos-os-Santos: guia de ruas e mistérios”, até "Capitães de Areia".


“Sua rampa escorregadia, seu cheiro de mar e de peixe, seu colorido de frutas tropicais (...) é “formosa a madrugada no cais, quando partem as velas, saveiros e canoas, batelões e barcaças, rumo ao oceano que ruge adiante no quebra-mar”.

Enquanto isso...

Em dezembro de 2021 a Prefeitura de Recife inaugurou um novo cartão-postal da cidade, com um portal que marca o Oceano Atlântico e ativando o Cais da Aurora, em uma área de encontro entre Rio Capibaribe e o Rio Beberibe.

Foto: Rodolfo Loepert / PCR

Ao que parece, em Salvador, uma cidade voltada para o mar, as apostas governamentais seguem com os olhos em terra, com cimento e asfalto passando por cima da história e da cultura da maior baía do Brasil.


A propósito, já imaginaram se no lugar onde se pretende reativar a escultura de Mário Cravo, se colocasse uma réplica ou escultura de um saveiro, desenhado por Bel Borba? Fica a dica e a reflexão de como uma cidade que nasceu e vive para o mar, segue de costas para o seu maior patrimônio.




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