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Tamara Klink: "Antes de partir é muito mais fácil desistir"

O sobrenome pode até dispensar apresentações, mas em busca de um sonho absolutamente corajoso e cheio de dificuldades, Tamara Klink é a mais jovem brasileira a cruzar o Atlântico sozinha em um veleiro, com apenas 24 anos. Em sua rápida passagem por Salvador para o lançamento de seus dois últimos livros “Mil milhas" e "Um mundo em poucas linhas”, o Mar Bahia conversou um pouco com ela, que apesar de uma agenda apertada, detalhou um pouco da sua saga a bordo, seu processo de criação e a conquista de seus próprios caminhos.

Foto: Divulgação

MAR BAHIA - Antes de mais nada, bem-vinda à Bahia! A gente sabe que você já deve ter ouvido bastante “parabéns”, mas pode ter certeza que o começo da sua jornada em solitário no mar, segue inspirando, sobretudo, muitas mulheres, a também serem encorajadas a escreverem as suas histórias a bordo.


TAMARA KLINK – Muito obrigada! E obrigada também por ter ido ao meu lançamento em Salvador; eu fiquei muito feliz de conversar um pouquinho com você.


MB - Navegadora, apresentadora, escritora, palestrante e com especialização em arquitetura naval. Com apenas 24 anos, você já traz uma bagagem bem diversa em seu currículo. Fale um pouco como lida com tantas vertentes e se sente um chamado especial por algum destes talentos.


TK - Escrever é muito importante para mim, sobretudo quando estou no mar, para me fazer sentir acompanhada e que sou um ser humano, apesar de estar o tempo todo cercada de água, céu e adversidades que muitas vezes me obrigam a deixar de lado o conforto e comodidades que temos na cidade, deixando de comer para resolver problemas, dormir para ter certeza que não vamos colidir com nenhum objeto, então, escrever é uma ferramenta importante porque me traz humanidade em meio ao mar.


MB - Obviamente, convivendo e viajando com seu pai, você já acumulava uma boa bagagem náutica. Fale um pouco sobre suas experiências a bordo antes de decidir que iria velejar de forma solitária.


TK - Foi muito bom ter tido a chance de navegar com outras pessoas antes de navegar em solitário porque sentia que eu também queria ser capaz de fazer o que aquelas pessoas faziam, então foi fundamental essas experiências que me deram mais segurança, mas no fundo eu sempre me projetava navegando em solitário, mesmo rodeada de gente. (Risos)

Foto: Divulgação

MB - Em um barco de apenas oito metros, desvendou-se um mundo de possibilidades e o “Sardinha” tornou-se um gigante para todos que acompanharam a sua travessia de 5.600 milhas entre a Noruega e o Brasil (Recife-PE). Um feito, sem dúvidas. Mas, especialmente para você, o que significou esta primeira conquista tão simbólica?


TK - Foi muito feliz para mim fazer a travessia com esse barco, que não era indicado nem para a travessia do Mar do Norte, nem a do Atlântico. O "Sardinha" não era o barco mais indicado, mas foi o que eu pude comprar! Me fez descobrir que eu podia fazer muito, ir muito longe e com muito pouco.


MB - Muitos dos momentos vividos a bordo por você foram compartilhados com o mundo inteiro via redes sociais, ampliando não só a audiência da sua viagem, mas também a amplitude emocional dessa navegação, não apenas técnica, mas muito poética. Conte como estes registros digitais também fizeram e fazem parte do seu estar no mundo.


TK - A poesia para mim é a forma onde consigo expressar em poucas linhas sentimentos difíceis de colocar em frases ou livros inteiros. Seu caráter sintético me ajuda a comunicar muito, mesmo com pouco tempo ou disposição para escrever.


MB - Liberdade, alegrias, medos, escolhas. Foram – e são – muitos os sentimentos que estiveram e que seguem com você durante as suas navegações. Você conseguiria destacar um pior e um melhor momento vivido a bordo durante a sua última navegação pelo Atlântico?


TK - O melhor momento foi a partida da França, que foi muita longa e difícil, senti muito medo das coisas não darem certo, até porque antes de partir é muito mais fácil desistir, é tentador porque as coisas dão errado, não seguem o cronograma que tínhamos antes e partir é sobretudo um grande alívio, é sinal de que não desistimos e que todos os esforços feitos vão servir para alguma coisa - e que nunca mais estaremos tão perto de poder ter realizado suas metas. Os piores momentos, certamente, na Linha do Equador, com os pirajás e calmarias, que são muito aflitivos para o nosso emocional; além de ter que lidar com a frustação de ambas as situações, já que somos reféns da natureza e daquele meio. Peguei um pirajá de cerca de 6 horas onde o barco só rodava, entrava água, perdi equipamentos importantes, mas enfim, sobrevivemos. (Risos).


MB - A sua vinda a salvador tem um motivo especial, que é o lançamento dos seus livros Mil Milhas” e “Um Mundo em Poucas Linhas. O que os leitores podem encontrar nestas publicações?


TK - O "Mil Milhas" traz relatos de viagens que conta o começo dessa primeira travessia do Mar do Norte, a compra do Sardinha e como o sonho começou a se tornar projeto e um risco traçado em uma carta de viagem. Já “Um Mundo em Poucas Linhas” fala sobre o crescer, a relação com os pais, com o sonho, com a língua e é, sobretudo, o fazer diários nesse exercício de colocar o mundo nas poucas linhas de um caderno.


MB - E a pergunta inevitável, Tamara: quais os planos a partir de agora?


TK - Concluir a viagem com o Sardinha até Paraty e em segurança, e seguir com o lançamento dos livros. Muito obrigada pelas perguntas e bons ventos para o Mar Bahia!

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